Hoje, muita gente que jura que carisma pode ser aprendido e exercitado; algo que se treina com a supervisão de professores e marqueteiros, em esquemas semelhantes ao das antigas escolas de etiqueta. Realmente não acredito nessa teoria. Com muito esforço é possível que uma pessoa aprenda, sim, a ser simpática; a desenvolver assuntos variados em reuniões sociais; a ser mais convincente; a utilizar a voz de forma adequada; a discursar; a ser educado; enfim, a causar uma boa impressão. Mas carisma vai muito além de tudo isso.
Na mitologia grega, as "Charites" ou "Graças" são representadas, principalmente, por três especiais divindades: Aglaia (claridade), Eufrosina (alegria) e Talia (florescência). Elas são as deusas da dança, do encantamento, do amor, da beleza, da delicadeza e da sedução. Em outras palavras, personalizam, juntas, o verdadeiro sentido da palavra carisma.
E é pensando no mito que se percebe a intensidade e a magia da palavra. Carisma brota da alma e não dos gestos; do espírito, não das palavras. É um magnetismo sem aritmética ou passos marcados. E não é privilégio de poucos. Todos temos ou já tivemos carisma, em diferentes graus ou momentos. No entanto, poucas pessoas têm o dom de sustentar essa "chama natural" no olhar e nos gestos, por uma vida inteira.
Acredito, realmente, que carisma é dom de criança ou de adulto que não tem medo de continuar menino. E sempre penso em Aécio dessa forma. De terno e gravata ou de calça jeans, Aécio não esconde a juventude que transborda quando os olhos se apertam em um belo sorriso aberto. Como o avô Tancredo, Aécio descobriu que o segredo da vida é o prazer de vivê-la com toda a intensidade, sustentado por sonhos maiores que ele próprio. E é daí, exatamente, que brota o seu carisma: dos sonhos grandes e da alma leve, liberta de treinos e truques.

Bem, mas a pergunta que a jornalista Roseann Kennedy fez a Aécio, no último sábado, não foi bem essa. Roseann queria saber se "carisma pesa em uma eleição". Uma resposta bem simples seria dizer que essa é uma questão subjetiva, pois afinal causa constrangimentos ao provocar possíveis comparações. Também se podia dizer a ela que carisma pesa e que isso se prova com uma simples análise rápida por nomes do nosso passado ou de personalidades do mundo - lá estão: Juscelino, Getúlio, Tancredo, Roosevelt, Obama... entre outros tantos.
Mas primeiro é preciso pensar sobre qual tipo de "carisma" Roseann se referia. Esse que os marqueteiros juram que se aprende com treino pode, sem outras condições adicionais, ser suficiente para eleições de diretórios estudantis, concursos de beleza. Mas, carisma, brilho da alma é sina, não a causa de um processo. E quando é tomado como causa, distorce o foco, cria personagens falsos ou ditadores. Do carisma verdadeiro nasce a vermelhidão da face e a humildade para evitar o embaraço. Ele é o fim, a sensação boa na despedida, não o peso da balança.
Então, Roseann, taí. A resposta é mesmo difícil, porque só quem a analisa com tabelas e pesquisas superficiais está preparado para respondê-la. Quem carrega o carisma como destino não pensa nele como meio. Só é abençoado pela vida no final, seja qual for o rumo que ela tomar.