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Falando nisso...
Por Ana Vasco, 9 de Setembro de 2009, 14h49
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Encontrei por aqui um texto de Luis Fernando Verissimo, publicado na revista Veja, em maio de 1985. Atualíssimo! Transcrevo pois, mais do que uma homenagem a Tancredo, é um texto que nos leva a pensar sobre o Brasil e sobre as "caras" do poder... plastificadas, treinadas, emolduradas. Sobre o nosso desejo de mudança, que descarta modelos repetidos e propõe avanços.

 

"Caras"

Luis Fernando Verissimo

No Palácio dos Papas, em Avignon, tem uma sala com retratos de todos os pontífices que reinaram daquela cidade da Provence depois que a Santa Sé se mudou de Roma e dos antipapas que se sucederam em Avignon durante o cisma da Igreja. São pinturas do mesmo tamanho e no mesmo estilo. E, curiosamente, com a mesma cara. Não se distingue papa de papa, ou de antipapa, a não ser pela plaqueta com o nome que os identifica.

Você começa a desenvolver teorias sobre o fato. Obviamente, o papado não podia ser uma sucessão dinástica, de pai para filho, ou mesmo sobrinho, o que explicaria a incrível semelhança entre todos os retratados. Será alguma coisa na água ou no ar de Avignon, ou mesmo a luz neste salão de pedra, que dá a todos estes rostos a mesma expressão?

Todos foram retratados com a mesma idade. Pode ser coincidência. As roupas variam, mas as poses são mais ou menos iguais. Nada demais. As convenções para se pintar notáveis não mudaram muito em menos de um século, que foi o tempo em que houve papas em Avignon. Mas todos parecem pintados pelo mesmo pintor.

Este pintor teria que ser um fenômeno de longevidade para ter pintado todos os papas, e o último com a mesma firmeza de mão e de estilo com que pintara o primeiro. E teria que ser um fenômeno de simpatia e habilidade política para ter pintado todos os papas sem cair em desgraça com nenhum deles. E, mesmo aceitando-se a improvável tese do mesmo pintor em atividade durante quase 100 anos, como se explica que todos os papas têm o mesmo nariz, o mesmo queixo, o mesmo olhar?

A explicação lógica quem dá é a guia que nos acompanha na visita. Todos os quadros são mesmo de um único pintor, que não precisou trabalhar durante 100 anos nem bajular ninguém na corte para não perder o posto. Ele nem conheceu os papas retratados. E usou o mesmo modelo para todos eles. A importância dos quadros é menos histórica do que decorativa. Pensando bem, que diferença faz saber a fisionomia exata desde papa em comparação com a daquele? Apenas, se a guia não tivesse dito nada, eu estaria até agora remexendo teorias a respeito e já teria certamente chegado à metafísica. Que é, afinal, para onde a Igreja quer nos levar.

Alguém, algum dia, vendo os retratos reunidos de todos os presidentes do Brasil depois de 1964, poderia chegar a uma explicação oposta: são fisionomias diferentes de um mesmo modelo. Poderia até incluir o retrato do Tancredo nesta galeria imaginária e pensar que, assim como os papas pintados de Avignon continuam com a mesma cara antes e depois do cisma, o presidente civil só se diferenciaria dos militares no poder por detalhes. Os papas e antipapas se excomungavam mutuamente sem que isto mudasse muito as condições dos fiéis que pagavam pelas suas cortes paralelas. Mas a Nova República não seria o mesmo modelo com outra cara porque a cara era do Tancredo. A diferença estava na cara. O formato do nariz era a alegria dos chargistas, mas o que Tancredo representava para o país estava no resto do rosto, na curiosa combinação de determinação e serenidade, matreirice e integridade nas suas feições. O país apaixonou-se por Tancredo porque ele contrastava tão radicalmente com os generais que o antecederam que literalmente incorporava a mudança que todos queriam. Era um compêndio de contrários, o bom velhinho que vinha rejuvenecer o país, o típico acomodador mineiro que chegava como o símbolo de inconformismo.

O que está começando é um novo papado, um antipapado sem o poder que pensa que tem ou o mesmo modelo com outra pose. Descobriremos logo, certamente em menos de um século. Mas a cara que o distinguia não tem mais. Pelo que representou de esperança e pelo que comoveu com sua agonia, Tancredo já passou à história como o melhor presidente que o Brasil quase teve.





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